domingo, 31 de dezembro de 2017

A Carta

Eu escrevo essa carta porque não consigo escrever mais nada.

São dez horas, talvez onze. É tarde, ou talvez seja cedo. O tempo deixou de ser um fator importante.
Eu me sento, me deito, durmo, acordo, durmo novamente. Os sons não sobressaem a incapacidade de gerar estímulos internos. O externo é indiferente, os externos se tornam. As luzes não clareiam o bastante, ligo mais uma lampada. As luzes estão fortes demais, toco no interruptor. Eu como, caminho, como novamente, volto a caminhar. Faço isso novamente até que seja tarde, ou talvez cedo. Até que sejam dez horas, ou talvez onze.

Eu tinha externos, estímulos, desejos, amigos. Eles me deixaram. Havia um muito importante, ou talvez não houvesse. Existe um pouco de incerteza em toda afirmação, um pouco de verdade em toda brincadeira. Ramona era uma pessoa importante. Não tinha cor ou gênero. Não havia um rótulo que a definisse. Ele se foi, ou talvez nunca tenha estado. Uma vez ela teve problemas com os quais tinha que lidar. Todos temos. Precisou de um apoio, de uma pessoa para quando não houvesse ninguém por trás de si. Seus amigos não entenderam, disseram que daria um jeito. Ele deu. Disseram que eu seria a pessoa que a entenderia. Eu entendi, ou talvez nem tanto. Mas eu estava lá. Eu não podia ajudar com algo que ela tinha que lidar sozinha mas eu estava lá. Para rir, chorar, correr, caminhar, assistir, brincar, viver, imaginar. Os amigos dele não o deixaram, mas também não estavam lá. Eu não o deixei, mas talvez ele não tenha entendido que eu estava lá. Talvez por isso ele me deixou. Talvez por isso ela não estava lá. Essa não era a minha única amizade, talvez não fosse meu único externo. Mas, ele me deixou.

Saber o que fazer e conseguir são coisas diferentes. Tenho tentado, talvez não o suficiente. É difícil quando tudo parece tão embaçado, esfumaçado, distante, entre o nevoeiro. Tudo se torna incerto, tudo é um grande talvez. As memórias começam a desaparecer. A certeza começa a se desfazer. Esqueço como é esquecer. Esqueço que algum dia quis forçar o esquecimento de algo. Esqueço o que deveria ser natural e o que se tornou. Talvez se houvesse maneiras de não ter esperanças ou expectativas, não haveria um talvez. Eu pudesse tentar alcançar. Eu pudesse tentar não me esconder. Eu pudesse tentar recuperar uma pessoa. Mas tudo isso são incertezas. Um mar de externos que não me pertencem mais. Como várias páginas em branco caídas pelo chão de um quarto com as paredes pichadas. Um quarto grande. Grande o bastante para dois ou três... E talvez muitos mais.

Eu não sei o que fazer. Sou um casulo do que pareço. Sou um humano, mas não sou o que me tornei. Em algum momento algo quebrou. Durante um riso, uma lágrima, uma corrida, uma caminhada, um filme, um jogo, uma vida, uma ideia. Algo além de mim, mas que me afeta somente. Um externo ao meu eu, um outro eu que não me habita. Ele está no chão. Não caminha, descansa, come ou dorme. Sua aparência reflete tudo além de si mesmo. Suas esperanças, suas memórias em decadência, suas amizades que lhe deixaram, suas vontades. A caixa torácica reflete a paciente tentativa de não morrer. Os olhos cansados de ver e não observar. O corpo cansado de tentar. Talvez eu pudesse ajudar com alguma coisa. É uma pena que seja apenas meu reflexo no espelho. Continuo olhando, e não sei o que fazer.

Não posso continuar assim. Não tenho energias o suficiente. Não tenho forças o suficiente para continuar assim. Ainda estou tentando, isso é uma tentativa. Talvez eu pudesse tentar um pouco mais, talvez não fizesse diferença. Eu não faço diferença. Não existe uma existência que possa fazer alguma diferença significante em outra. Eu não sei o por que tentei. Talvez achasse algo diferente. Mas, agora estou sem forças. Ramona está longe, encontrou seus externos, pessoas. Eu sou só um vice-treco do sub-troço. Não acrescento. Só entretenho. Não sou nada do que gostaria de ser, mas talvez seja tudo o que consegui. Não sei se sou, mas o que já fui nunca mais serei.
Eu corro por que não consigo mais olhar para onde ir.
Eu durmo por que não tenho mais nada pelo que valha a pena acordar.
Eu escrevo essa carta por que não consigo escrever mais nada.



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