domingo, 21 de fevereiro de 2016
Soneto a mim mesmo em uma noite de domingo
Respiro lentamente em ritmo pragmático,
A depressão me retirou o que seria automático,
E agora, em declínio, sinto toda e qualquer mudança.
Os fatores externos me fizeram ser prestativo,
Contatos sociais me tornaram pouco emotivo
E minha genética anulou qualquer esperança.
O que vejo a frente é uma carcaça vazia,
Pele e carne, agora sem qualquer serventia,
Deixadas para o verme que há de come-las.
E um sistema nervoso impecável, posso dizer
É uma pena que isso viria a ser perder
Quando a morte fizer questão de recolhê-las.
O espelho refletia, e o ser que refletia
Tinha em seus olhos profunda ganância.
A qualquer momento assumiria minha identidade.
Quanto mais olho, mais me sinto intrigado,
Serei eu o reflexo? Nós já trocamos de lado?
E ao redor me desmonta a realidade.
Em um vislumbre temporário esqueço,
- Onde estou? Qual será meu endereço?
E a escuridão me envolve em uma brisa fria.
Pasmo ao perceber que não mais vejo um reflexo,
Beiro uma crise em um cenário tão sem nexo
De ser o criador a encarar sua própria cria!
A aparência remete a o que via anteriormente,
Mas sua icônica olheira não era mais aparente
E seus olhos eram puxados como os de um asiático.
Desgraçado seja por essa injusta chantagem!
Saber o que mais desejei e usar como vantagem
Para roubar meu lugar oblíquo e enigmático.
Um ser que não quer céu ou inferno,
Mas deleita viver um limbo eterno
Onde veria o trágico destino da humanidade.
Tão descrente que suas mãos anseiam tocar
A imagem de Cristo, onde poderia questionar
O quão trágica e bela é a imortalidade.
Ao seu redor - me falha a memória -
Haviam objetos que contavam sua história.
Em sua prateleira as faces somam três:
O deus de seu mundo utópico,
O ladrão preguiçoso e um poeta melancólico.
Cada um esperando por sua vez.
Foco a visão e me foca a angústia aguda,
Minha expressão torna busca por ajuda,
Enfim o deixo em paz - e maldito seja!
Penso que sou louco, doido, maníaco,
Completamente insano e sem senso de ridículo,
Por hesitar tonar o que ele deseja.
Então me ataca a tosse seca,
No escarro de textura intrínseca
Vejo o escárnio da minha calma.
Ao negar Caronte, sofro
A claustrofobia de estar coberto em corpo
E hipotermia de estar nu em alma!
Que venha o diagnóstico mais relevante
Revelar-me a verdade cruel e inerente,
Pois minha vida já está aos destroços.
Sento em um canto enquanto ainda ouço e vejo
O estado de um corpo que também almejo,
E o vazio som do chacoalhar dos meus ossos.
Enfim, enxergo o que realmente acontece,
Ao meu redor nada mais me entristece,
A contrária visão - Me espanto!
Melancólico o destino do ser simplório
Viver a ilusão do eterno velório
Do ponto de vista daquele já morto!
Encosto minha cabeça na parede fria,
E questiono mais uma vez o motivo de tanta agonia,
Na metade do dia sequer sei o que faço.
A outra metade guardo para algo essencial,
Garantir que ainda seja visto como alguém normal,
Embora esteja perdido no tempo e espaço.
Então fecho os olhos lentamente e penso
"Por ventura escreverei um verso extenso
Que reflita a mágoa de viver tão solitário".
E me recordo o motivo de tanta tristeza,
- Sobrevivi a uma mentira ou só adiei a certeza?
Amanhã seria o dia do meu aniversário.
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